Projeto gráfico Kiko Farkas/ Máquina Estúdio e Elisa Cardoso/ Máquina Estúdio
Foto de capa Marcel Gautherot
Data de lançamento
10/03/2008
14.00 x 21.00 cm, 120 pp. ISBN 9788535911831 R$ 24,00
A morte e a morte de Quincas Berro Dágua Novela, 1961 |
Posfácio de
Affonso Romano de Sant’Anna
A morte e a morte de Quincas Berro Dágua conta a história da dupla - talvez tripla - morte de Joaquim Soares da Cunha. Teria ele morrido de morte natural, no leito pobre de um cortiço da ladeira do Tabuão, ou embarcado para o outro mundo algumas horas depois, no mar da Bahia, onde sempre desejara ser sepultado? Ou teria partido antes, quando caiu na vida dissoluta da capital baiana? Para desgosto da família, Joaquim Soares da Cunha, o Quincas, decidira largar tudo. A certa altura da vida, deixara de ser funcionário exemplar, pai, esposo e cidadão de bem para se juntar à malandragem da cidade, tornando-se o “cachaceiro-mor”, o “rei dos vagabundos da Bahia”. Certo dia, amanheceu morto. Para o velório, os familiares tentam restaurar o respeito pelo falecido e o vestem com elegância. No caixão, porém, Quincas ostenta um sorriso maroto. Estaria mesmo morto? À noite, chegam os companheiros de farra: Curió, negro Pastinha, cabo Martim e Pé-de-Vento. Os amigos de boa vida, embalados pela cachaça, dão de beber ao defunto e levam Quincas para passear pelas ruas da cidade até a orla. Ali, junto de seus amigos e de sua amante, Quitéria do Olho Arregalado, Quincas Berro Dágua vai encontrar seu derradeiro destino. Texto enxuto e denso, poético e debochado, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua é uma pequena obra-prima de Jorge Amado. Com construção e estilo primorosos, trata do conflito entre a ordem instituída e a liberdade da boemia.
Ilustração de Carybé
Alemanha
Cartaz da peça A morte de Quincas Berro Dágua, baseada no livro e encenada em Salvador
FICÇÕES Jorge Luis Borges
Ficções - publicado originalmente em 1944 pelas Ediciones Sur - é a obra que trouxe o reconhecimento universal para Jorge Luis Borges, graças, entre outros motivos, ao caráter fora do comum de seus temas, abertos para o fantástico, e à inesperada dimensão filosófica do tratamento.
Celebrada por muitos como a obra-prima de Jorge Amado, a novela A morte e a morte de Quincas Berro Dágua foi publicada pela primeira vez em 1959, na revista Senhor, com ilustrações de Glauco Rodrigues. O escritor vivia então um dos melhores momentos de sua carreira. No ano anterior, publicara Gabriela, cravo e canela, livro que marcou uma virada em sua obra, e em 1959 recebeu o título de obá orolu, uma das mais altas distinções do candomblé. Em 1961, o autor seria eleito para a cadeira de número 23 da Academia Brasileira de Letras. A primeira edição de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua em livro é de 1961, no volume Os velhos marinheiros. A novela vinha acompanhada da narrativa A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão-de-longo-curso, texto que depois seria editado à parte como O capitão-de-longo-curso. O sociólogo Roger Bastide elaborou um longo estudo que serviu de prefácio à edição francesa da novela. O texto foi publicado ainda em mais 21 países e ganhou adaptação para o teatro algumas vezes, a primeira em 1972. Em 1988, foi encenado na França. Na televisão, virou novela da TV Tupi em 1968. Dez anos depois, Walter Avancini e James Amado realizaram As mortes de Quincas Berro Dágua para a série Caso Especial, da Rede Globo, com participação de Paulo Gracindo, Dina Sfat, Stênio Garcia, Flávio Migliaccio e Antônio Pitanga. Em 2006, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua foi apontado como o melhor livro de Jorge Amado, numa enquete feita pela revista Entrelivros, da qual participaram Antonio Dimas, Milton Hatoum, Ferreira Gullar, Fábio Lucas, João Ubaldo Ribeiro e Boris Schnaiderman.
Era um morto pouco apresentável, cadáver de vagabundo falecido ao azar, sem decência na morte, sem respeito, rindo-se cinicamente, rindo-se dela, com certeza de Leonardo, do resto da família. Cadáver para necrotério, para ir no rabecão da polícia servir depois aos alunos da faculdade de medicina nas aulas práticas, ser finalmente enterrado em cova rasa, sem cruz e sem inscrição. Era o cadáver de Quincas Berro Dágua, cachaceiro, debochado e jogador, sem família, sem lar, sem flores e sem rezas. Não era Joaquim Soares da Cunha, correto funcionário da Mesa de Rendas Estadual, aposentado após vinte e cinco anos de bons e leais serviços, esposo modelar, a quem todos tiravam o chapéu e apertavam a mão. Como pode um homem, aos cinqüenta anos, abandonar a família, a casa, os hábitos de toda uma vida, os conhecidos antigos, para vagabundear pelas ruas, beber nos botequins baratos, freqüentar o meretrício, viver sujo e barbado, morar em infame pocilga, dormir em um catre miserável? Vanda não encontrava explicação válida.
"Esta história do Quincas Berro Dágua que você acabou de ler, tão inventada, é verdadeira. Verdadeira, sobretudo, em dois sentidos. Primeiro e obviamente, porque o personagem Quincas ganhou vida própria desde que a obra foi publicada, em 1959, nas páginas da célebre revista Senhor, sendo imediatamente traduzida em dezenas de línguas e logo transubstanciada em outras formas artísticas como teatro, balé e televisão. Portanto, a exemplo de Balzac, na França do século XIX, que criava tipos tão verossímeis que pareciam competir com a realidade do registro civil, este personagem do nosso Balzac baiano renasceu airosamente da folha de papel e passou a viver encarnado no imaginário de incontáveis leitores. Mas vou lhes revelar que esta história também é verdadeira porque deriva de um fato realmente sucedido. E digo isso certo de que a maioria dos leitores desconhece o episódio que levou a alucinação romanesca de Jorge Amado a elaborar esta obra prima, que não é um romance nem um conto, mas uma novela exemplar. Exemplar até no sentido que Cervantes, que tanto lidava com o cômico e o picaresco, usou em suas Novelas exemplares e em Dom Quixote."